O melhor time do interior não está no eixo
A base que sustenta o Tigre do Vale enquanto o profissional bate na porta da elite
Novo Horizonte, Estádio Jorge Ismael de Biasi, final da tarde. Sol baixo, gramado ainda quente.
O time profissional treina de um lado. Do outro, no CT Gino de Biasi, às margens da SP-321, meninos de 15, 17, 19 anos repetem o mesmo padrão de jogo. Mesma intensidade. Mesma exigência de posicionamento.
Não é coincidência.
Eu anotei no caderno: “Aqui o profissional não é o ponto de partida. É a continuação.”
O número que importa
O Novorizontino tem cerca de 160 atletas nas categorias Sub-13, Sub-14, Sub-15, Sub-17 e Sub-20. Renova anualmente o Certificado de Clube Formador da CBF desde 2015. Em 2024, o Sub-20 foi campeão paulista pela primeira vez, eliminando o Palmeiras na semifinal e goleando o São Paulo por 3 a 0 na final, em Itu.
Campanha: 28 jogos, 21 vitórias, 6 empates, 1 derrota. Melhor campanha da competição. Artilheiro isolado: Pedro Balotelli, 19 gols.
Naquele mesmo ano, o Sub-20 chegou à semifinal da Copinha. Pela primeira vez na história do clube.
Hoje, o ranking da FPF coloca o Novorizontino à frente dos quatro grandes da capital na categoria Sub-20, considerando as três últimas temporadas.
Isso não é sorte. É método.
Como a base alimenta o profissional
Genilson da Rocha Santos, presidente desde 2012, fala sem rodeios:
“Nunca o Novorizontino teve tantos atletas oriundos da base performando no profissional. São os casos do Rômulo, do Dantas, do Tavinho, do Diego Galo e outros garotos que já treinam com o elenco principal.”
Diego Galo estreou no profissional fazendo gol no Santos, na Vila Belmiro. Dantas, zagueiro de 21 anos, virou alvo de Botafogo, Fluminense, Athletico-PR e Corinthians. Luisão, também formado aqui, foi vendido ao Santos por cerca de R$ 10 milhões (ainda que o clube tenha ido à Justiça por parcelas em atraso).
A lista de promovidos nos últimos anos é longa: goleiro João Scapin, zagueiros Antony, Gabriel Correia e Bruninho, meias Miguel Contiero, Luiz Gabriel, Nogueira, Hector Bianqui, atacantes Jhones Kauê e Marquinhos.
O Novorizontino não “dá chance”. Ele prepara o ambiente para que a chance seja consequência.
Estrutura sem discurso
O CT Gino de Biasi tem 22 mil m². Dois campos (um oficial, um reduzido). Área específica para goleiros e atletas em transição. Academia, fisioterapia, fisiologia, piscina, sauna, hidromassagem, auditório. Investimento entre R$ 7 e R$ 9 milhões só nesta etapa.
Não é o CT de um clube de Série A. É o CT de um clube que entendeu que, numa cidade de 38 mil habitantes, o único caminho sustentável é formar e vender.
A SAF 100% — a primeira do país sem associação residual — funciona assim: a família Biasi coloca o dinheiro, a gestão cobra resultado, a base produz o ativo. O déficit anual de R$ 20 milhões ou mais só fecha quando a venda de um Luisão ou de um Dantas entra no caixa.
Genilson é claro:
“A única forma do clube ter retorno hoje é a negociação de atletas. Para isso, as categorias de base precisam ser de excelência.”
Por que o modelo funciona
Três razões simples.
- Continuidade. O coordenador Marildo está no clube desde 2010. O técnico do Sub-20, Rafael Stucchi, sobreviveu a um câncer de pulmão e voltou para conquistar o título. Não há troca constante de metodologia.
- Identidade de jogo. O Sub-20 joga como o profissional. Pressão alta, transição rápida, ocupação de espaços. Quando o menino sobe, não precisa aprender um novo idioma tático.
- Contexto. Novo Horizonte não oferece vida de metrópole. Oferece rotina, estrutura e responsabilidade. O menino que chega de São Paulo, do Rio ou do interior de Minas sabe que o clube precisa dele para sobreviver. Isso muda a cabeça.
O que o eixo não vê
O Novorizontino bateu na trave do acesso à Série A em 2023, 2024 e 2025. Em 2026, chegou à final do Paulistão e continua brigando na Série B.
A cada “quase”, a narrativa de fora fala de “falta de sorte” ou “falta de reforços”.
A narrativa de dentro é outra: cada temporada sem acesso ainda deixa no clube um Dantas, um Tavinho, um Diego Galo. Cada temporada sem acesso fortalece o CT e mantém a esteira girando.
O melhor futebol tático do Brasil não está necessariamente no eixo. Às vezes está numa rodovia entre Novo Horizonte e Catanduva, com 160 meninos repetindo o mesmo movimento até acertar.
A gente não descobriu o Novorizontino. A gente só foi ver o treino.
Do interior,
Rodolfo.


